O papel das artesãs
na salvaguarda do patrimônio imaterial relacionado às suas práticas têxteis
Morrerá a arte da renda no Nordeste brasileiro? É possível e até provável: consola-me a certeza de que não chegarei a ver o seu desaparecimento porque tem mais probabilidade de vida do que eu.
A inquietação expressa por Leite Oiticica, falecido em 1927, no clássico A arte da renda no Nordeste, permanece atual. Quase um século depois, a ameaça do desaparecimento das práticas têxteis tradicionais ainda paira sobre muitas comunidades. No entanto, entre riscos e resistências, o que se vê é um campo pulsante de ação, mantido vivo não apenas por políticas públicas ou instituições especializadas, mas, sobretudo, pelas próprias mulheres artesãs, que se organizam para garantir a continuidade de seus saberes.
Mais do que um movimento espontâneo movido por afeto ou nostalgia, esse esforço constante insere-se no que a Unesco define como “salvaguarda do patrimônio cultural imaterial”: um conjunto de ações que inclui identificação, documentação, pesquisa, preservação, proteção, promoção, valorização, transmissão — seja por meios formais ou informais — e a revitalização de práticas culturais vivas¹. Já o IPHAN entende a salvaguarda como um processo orientado pelo reconhecimento da diversidade cultural como elemento fundamental da identidade brasileira, destacando a importância de manter vivas as referências simbólicas e os modos de vida das comunidades².
No universo das rendas e bordados, o desinteresse de parte das novas gerações em aprender os ofícios das mães e avós é um lamento comum entre as artesãs há décadas. Os motivos são claros: o retorno financeiro quase nunca corresponde ao esforço e tempo empregados, o que compromete a continuidade dessas práticas. Em muitas regiões, de fato, técnicas e estilos têm desaparecido. Por outro lado, há também experiências de revitalização e crescimento, especialmente onde há oportunidades reais de valorização, comercialização e reconhecimento do trabalho artesanal.
As ações de salvaguarda, portanto, não estão restritas ao Estado ou ao terceiro setor. São, em grande parte, conduzidas pelas próprias mulheres que, reunidas em associações e coletivos, garantem a transmissão de saberes, adaptam técnicas e materiais, e renovam sentidos. Nesse contexto, o livro Têxteis do Brasil: Rendas e bordados soma-se aos esforços de preservação e valorização ao documentar, em palavras e imagens, nove técnicas tradicionais ainda praticadas no país. Além de contribuir para a continuidade de um saber que se transmite, em geral, de forma oral e pelo fazer conjunto, o registro funciona também como retrato de um presente vivo — e, como todo presente, em constante transformação.
Essa permanência, no entanto, não se sustenta apenas na transmissão técnica. Ela envolve uma rede complexa de sentidos que conecta o fazer artesanal ao cotidiano das mulheres, suas histórias, afetos e territórios. A continuidade dessas práticas está ligada não só à renda que podem gerar, mas aos modos de vida que ajudam a manter e reinventar.
O que nos une?
São muitas as metáforas que envolvem as linhas e seus labores: “as tramas da vida”, “as teias do destino”, “tecer relações”… Palavras que remetem a algo mais profundo — quase sagrado —, como se o gesto de tecer tocasse a própria criação da vida e os mistérios que a regem. Desde tempos remotos, os ofícios têxteis inspiram fabulações em diferentes culturas, atravessando mitos, histórias e práticas cotidianas.
No Brasil, as rendas e bordados retratados neste livro estão, eles mesmos, entrelaçados à criação e sustentação da vida. São obras de mulheres que também cultivam a terra, cuidam dos animais, criam os filhos, mantêm vivas as casas e os laços da comunidade. Afazeres muitas vezes naturalizados como “femininos” e que, durante séculos, permaneceram restritos ao espaço doméstico.
Se em alguns contextos os trabalhos de agulha serviram para reforçar normas de conduta e limitar a atuação feminina — com flores bordadas em guardanapos como moldura para um ideal de delicadeza —, aqui, esses mesmos gestos se convertem em ferramentas de liberdade. O domínio das técnicas tece novas possibilidades de existência: gera renda, reconhecimento e autonomia; reafirma identidades, preserva histórias e conecta gerações.
A força do coletivo também é decisiva. Em comunidades onde a produção é compartilhada, o fazer conjunto sustenta mais do que a prática artesanal, sustenta vínculos. Falar, escutar, dividir saberes, rir, tramar: tudo isso faz parte do tecido social construído entre mulheres que, ao se reunirem, produzem não apenas objetos, mas espaços de pertencimento. Em muitos lugares retratados, em toda casa vive uma artesã. E cada ponto, ainda que singelo, é parte de uma história maior, costurada a muitas mãos.
Juntas, transformamos
Realizamos a pesquisa para o livro junto a associações e cooperativas na região Nordeste com as quais a Artesol nutre relações antigas, algumas desde a fundação. Durante o trabalho de campo, foi comum encontrarmos iniciativas voltadas à salvaguarda dos saberes tradicionais que expressavam o desejo de envolver e formar as novas gerações. A seguir, reunimos algumas dessas experiências, que não apenas inspiram reconhecimento, mas também apontam caminhos para novas ações no fortalecimento do artesanato como campo profissional e cultural.
Em Paripueira (AL), a Artecer assumiu a missão de manter viva a Renda Singeleza. Técnica tradicional que passou por uma revitalização recente, sendo transmitida por mestras como Sônia Maria de Lucena, Jeane Valentim e Maria Cícera da Silva. Desde 2023, a associação promove cursos voltados a mulheres do Programa Minha Casa, Minha Vida, com turmas de cerca de 20 alunas em ciclos de três meses. Muitas das formandas seguem integradas à produção da Artecer, fortalecendo a cadeia local do artesanato e consolidando novos elos na continuidade da técnica. Em Marechal Deodoro, a Casa da Singeleza Dona Marinita complementa esse movimento com oficinas comunitárias e escolares, assegurando a presença ativa da singeleza em diferentes territórios e faixas etárias.
Ainda em Marechal Deodoro, no povoado de Barra Nova, a Cooperartban dedica-se à valorização do Bordado Filé, outro saber emblemático da região. Em parceria com o Instituto Federal de Alagoas (IFAL), o grupo desenvolveu ações de formação que integram tradição, geração de renda e reflexão crítica sobre o papel do artesanato na vida comunitária. O foco na juventude é central: busca-se despertar nas novas gerações o interesse por esse patrimônio vivo e, ao mesmo tempo, criar perspectivas de futuros a partir dele.
Em Entremontes (AL), desde 2018, a Companhia de Bordados mantém uma escolinha de bordado para meninas de 5 a 14 anos com apoio do Instituto Campana. Sob a orientação de Edna e Jéssica Bezerra, mãe e filha, as alunas participam de aulas semanais em dois turnos, bordando no contraturno escolar. Mais que técnica, aprendem ali a escutar, a criar e a conviver. O espaço torna-se um terreno fértil para a transmissão sensível do saber, que se dá de forma lúdica, cotidiana e profundamente afetiva.
No litoral do Ceará, a mestra Ana Maria da Silva, em Trairi, reúne quase cinco décadas de dedicação à renda de bilros. Filha de rendeira e professora por formação, ela alia o rigor da prática à busca constante por metodologias de ensino. Já ministrou cursos em instituições como o Sebrae e a Ceart, e após uma vivência em Portugal, passou a estudar formas de sistematizar o ensino da renda, resgatar padrões antigos e experimentar novos materiais. Sua casa funciona como um espaço expositivo e pedagógico, onde o ofício é compartilhado com generosidade e precisão.
Também no Ceará, o Grupo de Rendeiras de Santana do Cariri resiste com força coletiva. Reunidas diariamente para trabalhar, as artesãs mantêm viva a tradição da renda de bilros e oferecem, ocasionalmente, cursos para iniciantes. Foi em um desses encontros que Antônia Toilza aperfeiçoou sua técnica e fortaleceu seu vínculo com o grupo. Para elas, aprender a rendar é também aprender a conviver — e é essa coletividade que sustenta, há mais de uma década, a prática e a união em torno do saber-fazer.
Essas iniciativas, cada uma à sua maneira, mostram que a transmissão do conhecimento artesanal pode se tornar uma poderosa ferramenta de transformação. Seja em oficinas para meninas, em parcerias com instituições de ensino, ou em espaços domésticos convertidos em sala de aula, a tradição se reinventa como projeto de futuro — tecida em comunidade, passada de mão em mão.
¹ UNESCO. Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Paris, 17 out. 2003. Tradução: Ministério das Relações Exteriores. Brasília: UNESCO, 2006.
² INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Instrumentos de salvaguarda. Brasília: IPHAN, [s.d.]. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/418. Acesso em: 28 abr. 2025.