Uma curadoria que celebra a autenticidade estética do Brasil
Para o estilista Antonio Castro, da FOZ Ateliê, visibilizar as técnicas têxteis do Brasil é um gesto inédito, urgente e revolucionário, tendo em vista o risco de esquecimento de saberes seculares

O ofício de bordar, tecer e desfiar é, em geral, embalado pelo silêncio. Mãos se concentram na coreografia de agulhas e bilros que entrelaçam linhas e fios, enquanto olhos atentos acompanham a rigorosa dança da matéria que, no desfiar do tempo, se transforma em artesanato. O têxtil brasileiro vem dessa herança silenciosa, interrompida somente pelo casual som do próprio gesto, ou até que, por fim, a vida atravesse o tempo do tecer e a urgência do cotidiano sobreponha bastidores e almofadas no cuidado da casa, filhos e roça.

Essa resistência silenciosa, passada por gerações e que teima em permanecer, é o que conduziu a investigação de Helena Kussik e Bianca Matsusaki na escrita de Têxteis do Brasil: Rendas e bordados, título recém-lançado pela Artesol, que mergulha na história e execução do artesanato têxtil brasileiro e inspirou a atual curadoria do projeto Artiz. Com um recorte preciso sobre os bordados, rendas de agulha e rendas de bilro, o livro é, além de um almanaque, um manual de produção e execução destas técnicas, iniciativa inédita no mercado editorial nacional, propondo-se a registrar e salvaguardar os saberes de mestras da produção artesanal de nosso território. Mas o que faz um projeto como esse ser tão relevante no cenário contemporâneo?

O feito à mão é pop?

Em um Brasil pós-pandêmico, vimos o mercado do artesanato de tradição explodir, na tentativa do consumidor de trazer um pouco de calor e memória para o cenário limitado de suas paredes brancas. Os saberes e fazeres tiveram seu momento de ascensão e encontraram um espaço fértil no consumo, no que podemos interpretar como uma necessidade contemporânea de espelhamento da memória e celebração da cultura nacional. De lá para cá, destinos considerados até então remotos tiveram um boom de acesso e procura. Empresas de turismo viram nos “roteiros culturais” uma possibilidade de expansão, e a cultura popular, cheia de cores, cheiros e sabores, passa a se tornar fonte de especulação e lucro.

Até aqui, nada mal. A crescente de interesse do brasileiro pelo próprio país deve ser celebrada e incentivada, afinal, é esse o objetivo de iniciativas que buscam jogar luz sobre as riquezas que, em geral, não são reconhecidas pelo nosso povo. Apesar disso, é importante estar ciente de para onde as atenções se voltam. Você, leitor, imagino que já tenha ouvido falar na Ilha do Ferro, povoado ribeirinho de Alagoas, no sertão do estado. Sua recente descoberta pelos novos amantes do artesanato e da cultura popular vem atraindo turistas para a região, que se beneficia da movimentação econômica e descentraliza o circuito turístico do litoral do estado. O que, no entanto, muitos dos visitantes não sabem é que antes de a madeira esculpida, amplamente celebrada e desejada, ser protagonista do artesanato local, este era o lugar do bordado boa-noite.

Técnica tradicional entre os bordados de fio tirado (ou contado), o boa-noite tem seu berço no povoado ribeirinho que hoje se tornou hit entre os fãs do artesanato brasileiro. O que vemos, no entanto, é um interesse crescente na produção plástica do feito à mão na madeira (ofício que, com raras exceções, é dominado pelos homens da região) e cada vez menor em relação à produção têxtil local.

Seja por um desinteresse geracional ou pela ideia de que as habilidades têxteis estão correlacionadas a um imaginário coletivo antiquado ligado aos “ofícios de nossas avós”, as rendas e bordados não deram a “sorte” de sofrer a mesma gentrificação cool e pop que outras destas tipologias. Talvez aqui valha mencionar a exceção do crochê, que — graças ao raio gourmetizador das redes sociais — teve seu momento de ascensão nos últimos anos.

Artesãs que se expressam por meio de outras linguagens se veem cada vez menos representadas no cenário mercadológico brasileiro. Seu trabalho não ganha espaço nas lojas de artesanato e muito menos nas de decoração. A visibilidade dos têxteis se restringe a um corredor nos fundos das feiras nacionais de artesanato e segue ocupando lugar de coadjuvante.

A baixa procura comercial por estes fazeres tem como consequência o desaparecimento gradativo das agentes que perpetuam estes trabalhos: as artesãs. Diferentemente de outras produções mais orgânicas e até mesmo empíricas, as técnicas têxteis são altamente complexas do ponto de vista metodológico, requerendo uma dedicação e devoção ao ofício do aprendizado.

Por isso é tão surpreendente se deparar com esse projeto que não só coloca holofotes na história e nas técnicas têxteis, mas se materializa em uma curadoria no sofisticado espaço Artiz. Essa outra iniciativa da Artesol, que mora no shopping JK Iguatemi, celebra a autenticidade e a vitalidade das rendas e bordados em diferentes contextos: nas tradicionais rendas e toalhas de mesa que evocam memórias tão familiares a qualquer brasileiro, na arte contemporânea que atribui novos conceitos a tramas ancestrais, em diálogo com o design e mesmo com outras técnicas, como a cerâmica e os trançados.

Por que um projeto sobre os têxteis do Brasil é tão relevante?

Quando soube da iniciativa da autora Helena e da Artesol, achei curioso justamente o fato de escolherem começar pelo têxtil, e dentro desse universo, com o recorte preciso sobre as técnicas que foram elencadas (rendas e bordados). Digo começar, porque assim como você deve estar torcendo, eu também espero que este livro seja o início de uma série focada em mapear e salvaguardar os fazeres mais diversos do extenso repertório artesanal brasileiro. Mas, claro, há de se iniciar de algum lugar. E por que no têxtil?

Conheço bem a madura relação da autora com esse universo, mas sei que um projeto dessa envergadura não é apenas sobre isso. Uma publicação como essa é uma resposta a problemas iminentes, como o risco de extinção de saberes-fazeres relegados ao passado por um mercado que descaradamente ignora as rendas e bordados brasileiros enquanto manifestação estética. Por isso, a iniciativa é um ato de resistência, que reitera o compromisso que Ruth Cardoso assumiu na fundação da Artesol: salvaguardar e valorizar a produção artesanal brasileira.

Sua importância vai além do alcance daqueles que cruzarão com suas páginas em um eventual passeio por livrarias ou pelo espaço Artiz. Esse é um livro também feito para as mulheres que bordam e tecem se reconhecerem, redimensionando o valor do seu trabalho e se apropriando dessa incrível ferramenta de formação de filhas e netas.

A memória oral que ganha páginas feitas com esmero

O entendimento profundo das pesquisadoras sobre o modo de fazer apresentado nos textos explicativos de cada técnica, tão precisamente ilustradas, garante um repasse de saber com um nível de esmero que até então só era possível na oralidade. A publicação registra este rico conhecimento popular, importante para quem faz, quem consome e também para quem desenha.

Aqui, me refiro à nossa categoria: nós, designers e estilistas que vemos no Brasil mais que uma inspiração de tendências e estampas. Fazemos parte de uma comunidade pequena, mas que percebe nas técnicas e saberes do nosso país um espaço para a criação autoral e difusão de identidade. O acesso a informação técnica como a que este livro carrega é essencial para o entendimento profundo das minúcias que envolvem a construção destes fazeres e que reverberam em nossa maneira de pensar e projetar.

Em um ecossistema repleto de fatores que atuam para a perpetuação do que nos é valioso, Têxteis do Brasil nos aproxima do que a geografia de nosso país acaba por muitas vezes fazer tão distante. É uma ponte que interliga vivências complementares que dependem uma da outra para que seja possível tecer um futuro longevo para o feito à mão brasileiro.

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