O fim dos ofícios já está aqui

O artesanato volta a ser celebrado como símbolo de autenticidade e sustentabilidade, mas segue raro o debate sobre as condições que garantem sua existência. A valorização simbólica cresce, mas o reconhecimento material — o preço justo, o acesso a mercados éticos, e o respeito ao tempo e ao saber de quem cria — permanece em descompasso.

Nesse terreno de tensões, os textos de Rodolfo Mcartney se tornam leitura necessária. O que o autor observa na Espanha encontra eco no Brasil: ofícios ameaçados, comunidades que resistem e um público que, muitas vezes, admira mais do que apoia.

Seus ensaios nomeiam uma contradição global entre o discurso de valorização do fazer artesanal e a prática cotidiana de um mercado que questiona seu valor. Essa reflexão dialoga diretamente com o que a Artesol e o projeto Artiz defendem: o direito de quem cria viver do próprio trabalho, com dignidade, preço justo e continuidade.

Estamos deixando morrer ofícios de milhares de anos. Não são fechamentos comerciais: são funerais culturais. Do bordado à alpargata, da renda ao couro, o que parecia eterno hoje sobrevive apenas como souvenir. Na Espanha e em toda a América Latina, as oficinas se esvaziam enquanto olhamos para o outro lado. Vamos permitir que a memória feita à mão seja extinta sem fazer nada?.

O fim dos ofícios já está aqui. Bordados, rendas, alpargatas, seleiros… o que parecia eterno hoje sobrevive apenas como souvenir, sem continuidade nem futuro.

A renda de bilros não desapareceu: nós a degradamos a souvenir barato. As alpargatas que fizeram caminhar um país hoje são apenas decoração sazonal para turistas. A selaria sobrevive em oficinas vazias, enquanto o luxo vende seu legado a preço de ouro.

Não é só na Espanha. Na Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela, Paraguai, Uruguai e Brasil as oficinas também estão morrendo. Chamamos de “tradição” aquilo que estamos deixando morrer sem continuidade.

Quantos nomes de bordadeiras, rendeiras ou costureiras você conhece? E quantos logotipos de marcas internacionais? O luxo não está em um logotipo. O luxo são as mãos que estamos matando de fome. Se os ofícios desaparecerem, não haverá segunda oportunidade.

Eu não falo de estatísticas. Não porque eu não queira, mas porque elas nem mesmo existem. O artesanato nunca foi levado a sério nas medições. Não há censos, não há números reais. E esse vazio já é uma forma de desprezo: o que não se mede, não se protege.

Vi oficinas fecharem com as ferramentas ainda quentes. Vi artesãos desistirem, mãos silenciadas que sabiam bordar em seda, costurar couro, entretecer séculos de memória.
Cada vez que um ofício desaparece, não morre um negócio: perde-se um mundo inteiro.

Confesso: isso me dói. Dói porque não falo em abstrato. Falo de vidas concretas, de
sobrenomes, de pessoas que já não estão. Apaga-se uma linguagem que não
se aprende em manuais. Rompe-se um fio invisível que unia gerações.

Até quando vamos permitir que isso desapareça antes de reagirmos?

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