Tensões na comercialização do artesanato brasileiro
Pesquisa conduzida pelo projeto Artiz aponta entraves estruturais e caminhos possíveis para o comércio justo
O artesanato brasileiro movimenta saberes, territórios e identidades e responde por cerca de R$ 100 bilhões por ano, aproximadamente 3% do PIB nacional, segundo estimativas citadas em estudos do IBGE. Apesar de sua relevância cultural e econômica, o setor continua marcado por profundas desigualdades na sua cadeia de comercialização.
Para compreender melhor esse cenário, o projeto Artiz, iniciativa da ONG Artesol para o comércio justo, realizou, entre 14 e 31 de outubro de 2025, uma pesquisa com a participação de 95 respondentes, entre artesãos (43%), consumidores (20%), lojistas (17%), representantes institucionais ou governamentais (12%) e outros (8%), distribuídos por 20 unidades federativas de todas as regiões do país.

O questionário foi divulgado por meio do perfil @artiz.oficial no Instagram, do encaminhamento para membros da Rede Artesol, coletivos de lojistas, parceiros institucionais e governamentais e por circulação orgânica. Os resultados não oferecem respostas simples nem apontam culpados. Eles desenham um retrato consistente das percepções, tensões e dilemas que atravessam a cadeia do artesanato brasileiro.

Para 74% dos respondentes, quem mais perde no modelo atual são os artesãos ou grupos produtores. Entre aqueles que sustentam essa resposta, 52% são artesãos, 25% consumidores e 4% lojistas. Já entre os 7% dos respondentes que afirmam que quem mais perde na cadeia são os lojistas, 86% pertencem à categoria, não havendo nenhuma resposta de consumidores ou artesãos nessa opção. A percepção de ganho e perda pode estar fortemente relacionada ao lugar que cada ator ocupa na cadeia.
Entre os participantes, 56% acreditam que quem mais ganha na cadeia do artesanato são os lojistas ou revendedores. O cruzamento das respostas mostra que, dentro desse grupo, 58% são artesãos, 23% consumidores e 6% pertencem ao próprio grupo de lojistas, compondo uma leitura que não se restringe à base produtiva ou consumidora, mas é compartilhada por alguns revendedores.
19% dos respondentes afirmam que ninguém ganha de fato na cadeia, por considerarem o mercado injusto para todos. Entre os que sustentam essa resposta, 35% são representantes institucionais ou governamentais. O dado introduz uma leitura menos polarizada e sugere que a percepção de um sistema estruturalmente desequilibrado, que pressiona simultaneamente diferentes elos da cadeia, está presente também entre atores com visão ampla do setor.

79% dos respondentes consideram o mercado “pouco justo” ou “totalmente injusto” com quem produz artesanato. Dentro desse grupo, 47% são artesãos, 28% consumidores, 15% representantes institucionais ou governamentais, 5% lojistas e 5% pesquisadores. À medida que se avança na cadeia, a percepção muda: o mercado é visto como “justo na maioria das vezes” ou “totalmente justo” por 52% dos respondentes quando se trata da revenda e por 69% quando o foco é o consumidor final. Os dados indicam uma percepção do sistema como mais favorável para os elos finais da cadeia do que para quem produz.
Entre os respondentes, 78% afirmam que o tempo de produção, o saber envolvido e o valor cultural do artesanato estão refletidos no preço apenas às vezes ou raramente, indicando que a adequação entre preço e valor é percebida como exceção. Apenas 13% avaliam que isso ocorre sempre. O dado evidencia um descompasso entre reconhecimento simbólico, viabilidade econômica e preço final ao consumidor.
A pesquisa revela uma relação ambígua com o comércio justo: 46% dos respondentes já participaram diretamente de iniciativas desse tipo, enquanto 32% não conhecem o conceito ou experiências associadas — e metade desse grupo é formada por artesãos.

Não há rejeição às ferramentas contemporâneas de venda. Para 79% dos respondentes, as plataformas digitais são vistas como positivas para a circulação do artesanato, o que indica abertura a novos modelos de comercialização.

Onde estão os gargalos?
A pesquisa buscou identificar quais são, na percepção dos respondentes, os entraves que impedem o artesanato de circular e ser valorizado no país. A lista a seguir, elaborada a partir das opções mais selecionadas em pergunta de múltipla escolha, revela que os obstáculos mais citados não estão ligados apenas à venda em si, mas a uma combinação de fatores simbólicos, institucionais e econômicos.

Quando questionados sobre caminhos possíveis para a valorização do artesanato, os respondentes apontaram soluções que combinam visibilidade, legitimação institucional e acesso a mercados estruturados. A recorrência de propostas ligadas a curadorias, exposições, campanhas narrativas e compras institucionais sugere que a valorização do artesanato passa por sua inserção qualificada em circuitos culturais e econômicos capazes de produzir reconhecimento simbólico e sustentabilidade financeira.

A pesquisa procurou identificar quais mudanças práticas seriam capazes de produzir efeitos reais na distribuição de valor. A listagem abaixo evidencia uma forte demanda por instrumentos objetivos: um mercado mais justo depende de regras claras, capacitação e políticas ativas.

Além dos entraves materiais, a pesquisa evidencia o papel central de fatores simbólicos na desvalorização do artesanato. Ela não se expressa apenas no preço, mas também na forma como o artesanato é percebido socialmente.

É nesse terreno que o projeto Artiz atua como plataforma de debate qualificado, promoção de boas práticas, experimentação de estratégias de valorização do artesanato e reflexão crítica sobre o comércio ético. A pesquisa impulsionou também o ArtizCast, que reúne diferentes vozes do setor para aprofundar essas discussões e explorar caminhos possíveis.
Os dados mostram que o artesanato brasileiro é amplamente reconhecido como patrimônio cultural e saber sofisticado, mas segue inserido em um modelo de mercado que distribui valor de forma desigual. Reconhecer essas assimetrias, sem simplificar responsabilidades ou antagonizar atores, é um passo fundamental para construir soluções compartilhadas. A pesquisa não encerra o debate, ela o inaugura. O convite agora é ampliar a escuta, qualificar a conversa e transformar diagnósticos em prática.