Quantos bois cabem no Brasil?
A palavra é a mesma, mas cada boi pertence a uma festa, a um tempo e a um modo próprio de aparecer.
A série editorial do projeto Artiz nasceu para ampliar as histórias que chegam até nós com as obras reunidas em suas curadorias. Em Festa do Imaginário, muitas delas começam antes do artesanato, nas imagens, personagens e objetos que circulam pelas festas brasileiras.
O boi é uma dessas imagens.
À primeira vista, parece fácil reconhecê-lo. Tem corpo, cabeça, chifres, nome. Basta acompanhar algumas festas, porém, para que a palavra comece a perder sua aparente simplicidade. Há bois ligados ao São João e outros ao ciclo natalino. Bois que atravessam a rua, ocupam terreiros ou entram numa arena. Bois que morrem e voltam à vida, que desaparecem, são perseguidos, vendidos ou surgem apenas perto do fim da brincadeira. Há lugares em que toda a festa se organiza em torno deles e outros em que dividem a cena com dezenas de personagens.
Não se trata, portanto, de procurar a versão original para colocar as demais em torno dela. As brincadeiras de boi no Brasil formam um conjunto amplo e historicamente diverso. O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular registra manifestações distribuídas por diferentes regiões do país, ligadas aos ciclos natalino, junino e até carnavalesco, com variações também no enredo, nos personagens e no destino dado ao animal.
A pergunta sobre quantos bois cabem no Brasil leva, então, a outra: por que justamente essa figura aparece tantas vezes?

Por que o boi se tornou uma figura tão recorrente no imaginário brasileiro
Não há uma origem única, comprovada, da qual descendam todas as brincadeiras de boi existentes no país. Até mesmo a formação do Bumba meu boi foi explicada de maneiras diferentes ao longo do tempo, com pesquisadores procurando relações com tradições ibéricas, africanas e indígenas e, posteriormente, chamando atenção para as combinações produzidas no próprio Brasil.
Há, no entanto, um dado histórico difícil de ignorar. Desde os primeiros séculos da colonização, o gado ocupou um lugar importante na economia e na vida cotidiana.
Introduzida no século XVI, inicialmente em estreita relação com os engenhos e com o abastecimento dos núcleos coloniais, a criação de gado avançou pelo interior à medida que a produção açucareira se concentrava nas terras mais próximas do litoral. Entre os séculos XVII e XVIII, a pecuária participou da expansão das frentes coloniais pelos sertões, da abertura de caminhos e do estabelecimento de fazendas, currais e povoados. O animal fornecia carne, couro, força de tração e transporte e estava presente no trabalho de vaqueiros, trabalhadores livres e escravizados.

É nesse mundo que algumas das narrativas associadas aos bois se tornam especialmente legíveis. O animal valioso pertencente ao patrão; o vaqueiro encarregado de cuidar dele; seu desaparecimento ou morte; a perseguição de quem o matou; a tentativa de recuperá-lo. Elementos desse universo aparecem, com muitas variações, em diferentes autos e brincadeiras.
Isso ainda não explica sozinho a formação dessas festas. Práticas de cortejo, mascaramento, teatro e encenação de animais já faziam parte de repertórios europeus trazidos para a América, enquanto populações africanas, afro-brasileiras e indígenas participaram decisivamente da criação das formas que essas manifestações assumiram aqui.
Em vez de um único boi que teria surgido em algum ponto e se espalhado intacto pelo país, a história sugere um processo muito menos linear. O mesmo animal, profundamente presente na economia e no cotidiano, foi incorporado a repertórios festivos diversos e transformado muitas vezes.
É daí que vale partir para olhar os bois que chegaram até hoje.
Bumba meu boi: o ciclo do Maranhão
No Maranhão, falar em Bumba meu boi significa falar de uma manifestação que não se limita ao momento da apresentação. O boi organiza um ciclo que atravessa meses e mobiliza grupos inteiros em sua preparação.
Seu enredo mais conhecido gira em torno de Catirina e Pai Francisco. Grávida, Catirina deseja comer a língua do boi preferido do patrão. Pai Francisco atende ao pedido da mulher e mata o animal. Descoberto o crime, começa a busca por uma maneira de devolver o boi à vida.

A história é célebre, mas está longe de dar conta do Bumba meu boi maranhense. A brincadeira se articula em etapas: ensaios, batismo, apresentações públicas e morte. O calendário se relaciona especialmente às festas de São João, São Pedro e São Marçal, e a devoção, promessa, trabalho coletivo e espetáculo convivem durante todo o processo.
Nem todos os grupos brincam da mesma maneira. Os chamados sotaques diferenciam repertórios musicais, instrumentos, coreografias, indumentárias e modos de apresentação. Matraca, zabumba, baixada, costa de mão e orquestra estão entre os mais conhecidos, sem esgotar a diversidade existente dentro do próprio estado.
Talvez esteja aí uma primeira resposta para a pergunta deste ensaio. Mesmo antes de atravessar uma divisa estadual, o boi já é muitos.
Do terreiro ao Bumbódromo
A história muda de escala quando chegamos ao Amazonas.
O Complexo Cultural do Boi-Bumbá do Médio Amazonas e Parintins, reconhecido pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil em 2018, reúne três formas de apresentação relacionadas entre si: o Boi de Terreiro, o Boi de Rua e o Boi de Arena.
No terreiro, a brincadeira acontece em espaços comunitários e conserva com maior evidência partes do auto, como chegada, evolução, despedida e matança do boi. Na rua, personagens e brincantes percorrem espaços urbanos e a relação com quem assiste se dá em movimento. A arena pertence a uma história mais recente, ligada à consolidação dos festivais.
Parintins tornou essa última forma conhecida em todo o país. Caprichoso e Garantido levam ao Bumbódromo apresentações competitivas construídas anualmente a partir de temas próprios, com música, coreografias, grandes estruturas alegóricas e centenas de pessoas envolvidas na produção.

Visto apenas pela televisão, o Boi-Bumbá amazônico pode parecer sinônimo desse espetáculo. Não é. A própria classificação patrimonial ajuda a lembrar que a arena convive com outras maneiras de brincar e que o boi circula por comunidades do Médio Amazonas muito além dos dias do festival.
Há ainda uma história particular por trás dessa presença. A documentação do Iphan relaciona a chegada dos folguedos do boi à Amazônia às missões religiosas e destaca, ao longo de sua formação, influências indígenas, afro-brasileiras e posteriormente nordestinas, estas últimas associadas também aos movimentos migratórios do ciclo da borracha.
O boi que chega à arena, portanto, carrega uma trajetória muito mais longa do que o espetáculo monumental deixa ver.
Nos reisados, o boi não está sozinho
A palavra “reisado” abre outro problema. Dependendo do lugar e da tradição consultada, Boi de Reis, Reisado de Boi, Reisado e outros nomes podem designar brincadeiras próximas, sobrepostas ou diferentes entre si.
Em linhas gerais, os reisados estão associados ao ciclo natalino e às celebrações dos Santos Reis. Grupos percorrem ruas e casas com música, canto e dança, e as apresentações podem incorporar pequenas cenas dramáticas conhecidas como entremeios. É dentro dessa estrutura que animais, seres fantásticos e personagens cômicos entram e saem da brincadeira.
O boi pode constituir um desses episódios. Em algumas formas, sua entrada é decisiva; em outras, divide a atenção com Mestre, Contramestre, Reis, Damas, Mateus, Catirina e uma variedade de figuras que muda conforme o grupo e a região.

Essa diversidade ajuda a desfazer uma equivalência tentadora. Boi de Reis, Bumba meu boi, Boi-Bumbá e Reisado não são simplesmente nomes regionais para a mesma coisa. Existem parentescos, empréstimos, fusões e estruturas compartilhadas, mas as classificações mudam historicamente e nem sempre coincidem nem mesmo entre pesquisadores.
Para quem olha uma máscara de Reisado Boi fora da festa, essa informação importa. O objeto pertence a um universo em que colocar uma máscara significa tornar possível a entrada de outra figura em cena. O boi é uma entre várias presenças que podem aparecer quano a brincadeira começa.
Cavalo-Marinho: o boi dentro do teatro popular
Há outra maneira de perceber o tamanho dessa diferença na Zona da Mata Norte de Pernambuco e no sul da Paraíba.
O Cavalo-Marinho é uma brincadeira ligada historicamente aos trabalhadores rurais e ao ciclo natalino. Durante horas, música, dança, poesia, improviso e representação fazem aparecer dezenas de figuras. O Capitão comanda a brincadeira; Mateus e Bastião ocupam parte importante de sua comicidade; personagens mascarados, galantes, bichos e figuras fantásticas entram sucessivamente no terreiro.

Seu repertório guarda marcas do mundo dos engenhos e das relações de trabalho da região. O Iphan o descreve como um teatro popular capaz de representar o cotidiano presente e passado de seus brincantes e registra também, entre seus elementos, a louvação ao Divino Santo Rei do Oriente e referências à Jurema Sagrada.
O boi aparece dentro desse universo, não acima dele.
E aparece tarde. Na descrição reunida pelo Iphan para o registro do Cavalo-Marinho, o brinquedo termina com a sua entrada. Depois de tantas figuras, falas, danças e situações, é o boi que conduz a brincadeira para o fim.
Em Santa Catarina, o boi vem acompanhado de uma bicharada
No litoral catarinense, o Boi de Mamão apresenta outro repertório.
Sua estrutura mais conhecida gira em torno da morte e da volta à vida do boi, conduzida por canto, música e representação. A partir desse núcleo, entram figuras que variam de grupo para grupo e de localidade para localidade: Cavalinho, Cabra, Urubu, Doutor, Benzedeira, Maricota, Bernunça e outras personagens acrescentadas ou abandonadas com o tempo.
Algumas ganharam tamanho destaque que hoje são quase inseparáveis da lembrança da brincadeira. A Bernunça, com um corpo comprido e uma boca que avança sobre o público, pertence ao campo dos bichos fantásticos. A Maricota é uma figura humana de grandes proporções, manipulada por um brincante e conhecida pelos movimentos exagerados. Ao lado delas, o boi continua sendo o ponto a partir do qual o enredo se organiza.

Também aqui convém desconfiar das histórias de origem excessivamente arrumadas. Durante muito tempo, o Boi de Mamão foi apresentado sobretudo como herança açoriana. Pesquisas recentes vêm examinando criticamente essa associação e comparando sua música e sua estrutura com outras brincadeiras de boi brasileiras. Não há consenso que permita reduzir sua formação a uma única procedência.
Talvez sua história seja mais interessante justamente por isso. Em Santa Catarina, uma estrutura ganhou sua própria população, feita de bichos e figuras, e continuou mudando dentro das comunidades que a brincam.
E então o boi renasce em madeira, barro, em forma de máscara
Depois desse percurso, algumas peças da curadoria Festa do Imaginário começam a pedir um segundo olhar.
Nos totens da Cooperativa de Artesanato Mestre Dezinho, de Teresina, a figura do Bumba meu boi aparece entalhada no buriti. Genivaldo Costa, também piauiense, leva o boi para a cerâmica e trabalha livremente sobre uma imagem conhecida em sua região. Já as máscaras de Reisado Boi feitas por Emerson Nogueira e Antônio Rodrigues, em Pernambuco, pertencem a outro universo de referências, em que máscaras, personagens e representação têm papel fundamental.
Colocadas lado a lado, essas peças poderiam produzir uma impressão enganosa: a de que todas representam simplesmente “o boi da cultura popular brasileira”.

O que se repete é a figura do animal. Todo o resto precisa ser perguntado: que festa é essa? Em que época ela acontece? Quem entra em cena junto com o boi? Ele morre? Volta? Chega no começo ou no fim? É conduzido pela rua, brincado no terreiro, disputado numa arena? De que materiais é feito quando deixa a festa e passa para as mãos de um artesão?
É justamente aí que a curadoria ganha espessura. Uma peça não precisa carregar consigo uma explicação completa da manifestação que a inspira. Mas pode guardar pistas suficientes para impedir que todas essas histórias sejam reduzidas a uma única imagem.
Quantos bois cabem no Brasil?
Os que couberem nas festas, nas mãos e nas matérias capazes de refazer essa imagem sem esgotá-la.
Para saber mais
CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. “Tema e variantes do mito: sobre a morte e a ressurreição do boi”. Mana, v. 12, n. 1, 2006.
IPHAN. Dossiê de Registro do Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão. Brasília, 2011.
IPHAN. Complexo Cultural do Boi-Bumbá do Médio Amazonas e Parintins.
IPHAN. Dossiê de Registro do Cavalo-Marinho.
ANDRADE, Mário de. Danças Dramáticas do Brasil. Organização de Oneyda Alvarenga. Belo Horizonte: Itatiaia; Brasília: Instituto Nacional do Livro/Fundação Nacional Pró-Memória, 1982.